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3 ilusões da gestão moderna: Um diagnóstico baseado na experiência com operações entre Brasil e EUA.

Johnathan Pires ·Sócio-fundador · ·5 min de leitura

Três crenças que empresas repetem com disciplina impressionante. Um balanço de 2025 entre Londrina e Atlanta.

As grandes ilusões da gestão moderna não são novas. Elas só ficaram mais bem vestidas.

Relatórios mais bonitos. Dashboards mais coloridos. Vocabulário mais sofisticado. O erro continua o mesmo, apenas ganhou gravata e PowerPoint.

Essa constatação se impôs a mim ao longo de 2025, alternando reuniões estratégicas no Brasil com projetos e conversas em Atlanta. Setores diferentes, culturas empresariais distintas, estruturas jurídicas opostas. Ainda assim, as mesmas ilusões reaparecem com uma disciplina quase pedagógica.

Empresas mudam de endereço. As ilusões viajam juntas.

Depois de quase dois anos operando entre os dois países, atendendo famílias empresárias brasileiras e acompanhando a dinâmica de negócios americana de perto, percebi que as falhas mais perigosas não são técnicas. São narrativas. São histórias que contamos a nós mesmos para justificar o que não queremos enfrentar.

Em 2025, três dessas narrativas se repetiram com tanta consistência que merecem ser expostas.

Essa é antiga. E incrivelmente resistente.

Existe uma crença silenciosa, raramente confessada, mas amplamente praticada, de que crescimento é um solvente universal. Como se mais faturamento tivesse o poder quase místico de dissolver falhas de processo, ruídos de governança e decisões mal tomadas no passado.

Não resolve. Nunca resolveu.

O que vi ao longo do ano, tanto em agronegócios brasileiros com faturamentos multimilionários quanto em operações americanas em fase de expansão, é o mesmo padrão: crescimento não corrige. Ele amplifica. Processos frágeis não desaparecem quando a receita aumenta. Eles escalam junto. Lideranças confusas não se tornam claras sob pressão. Elas se tornam mais perigosas. Decisões ruins não se corrigem com volume. Elas ganham impacto.

O que antes era um problema contornável vira um risco sistêmico. O que era ruído de corredor vira crise de conselho.

Dois casos que acompanhei de perto ilustram isso com clareza dolorosa.

O primeiro: uma empresa com mais de três décadas de tradição e funcionamento no mercado. Marca consolidada, história respeitável, discurso público impecável, "somos referência, somos exemplo." Por dentro, a realidade era outra. Caixa sufocado, processos engessados e um medo crônico de inovar. O CEO, cercado de gestores que eram antes de tudo amigos, não conseguia tomar as decisões que a empresa precisava. Trocar pessoas significava romper vínculos, e o vínculo venceu. A empresa seguia crescendo no discurso e sangrando no caixa.

O segundo: um império construído por um único fundador. Décadas de trabalho, patrimônio relevante, legado inegável. Mas com um problema que nenhum faturamento resolve: a sucessão. O fundador insistia em preparar os filhos para assumir o comando, só que os filhos ou não queriam ou não tinham perfil. A alternativa óbvia, trazer um CEO de mercado, profissionalizar a gestão, era tratada quase como traição. Foi preciso um longo processo de consultoria para que, já em 2025, ele começasse a enxergar que preservar o legado talvez exigisse abrir mão do controle.

Nos dois casos, crescimento não faltava. O que faltava era coragem para mexer no que realmente travava.

Crescer sem arrumar a casa não é estratégia. É só pressa bem remunerada.

Aqui a gestão moderna se sente especialmente confortável.

BI avançado. ERP robusto. IA aplicada. Automação em tudo. A promessa implícita é tentadora: "Agora os dados decidem por nós."

Não decidem.

Ferramentas ampliam a capacidade. Nunca substituem critério.

Vi empresas com infraestrutura tecnológica invejável tomando decisões tão ruins quanto aquelas que ainda operam no improviso. Dashboards impecáveis sustentando conclusões frágeis. Relatórios sofisticados usados para justificar decisões já tomadas emocionalmente. A diferença é que, com tecnologia, a má decisão chega mais rápido e com mais convicção.

Na prática, o que observo em comitês e conselhos é uma inversão curiosa: em vez de a tecnologia servir à estratégia, ela se torna o escudo da liderança. "Temos os dados" vira uma frase de proteção, não de diagnóstico. O dado existe, mas o critério para interpretá-lo, não.

Tecnologia não pensa. Ela obedece. Se o comando é ruim, ela executa mal, com eficiência impressionante.

É como dar um bisturi a alguém que não sabe anatomia. A ferramenta é excelente. O resultado, não.

A liderança continua sendo o gargalo. Sempre foi.

Talvez a mais confortável de todas. Porque dá sensação de controle sem exigir coragem.

Planejamento não elimina risco. Ele apenas revela onde o risco está, se houver disposição para enxergá-lo.

O problema é que muitas empresas usam o planejamento como anestesia, não como diagnóstico. Premissas otimistas demais. Cenários "ajustados" para não gerar atrito. Riscos empurrados para notas de rodapé, onde ninguém lê e ninguém cobra.

Em processos de FP&A que conduzo, o momento mais revelador não é quando os números fecham. É quando alguém na sala faz a pergunta incômoda. Quando aponta que a premissa de crescimento de 15% não se sustenta se o principal cliente reduzir pedidos. Quando questiona por que o cenário pessimista parece tão parecido com o cenário base.

O orçamento vira um documento de tranquilidade coletiva. O plano estratégico vira um acordo de silêncio bem organizado.

Nos projetos que tocamos na Value Group , insisto em uma regra simples: se o planejamento não gerou pelo menos uma conversa desconfortável, ele não cumpriu sua função. Número que não provoca pergunta é número que não está sendo lido, está sendo aceito.

Planejar deveria gerar tensão. Quando não gera, algo está sendo omitido.

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O PONTO CENTRAL QUE QUASE NINGUÉM QUER ENCARAR

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Empresas não quebram por falta de ferramenta, método ou tecnologia. Elas quebram por excesso de ilusão bem organizada.

Ilusões sustentadas por números que não são confrontados. Por reuniões que evitam o incômodo. Por decisões que preservam consenso em vez de encarar a realidade.

A gestão moderna falhou menos por incompetência e mais por covardia intelectual. É mais fácil investir em um novo sistema do que substituir um líder inadequado. É mais confortável aprovar um plano otimista do que enfrentar um conselho com a verdade. É mais conveniente atribuir resultados ruins ao mercado do que admitir que a estratégia estava errada desde o início.

O que 2025 me ensinou, entre salas de reunião em Londrina e Atlanta, é que a distância geográfica não muda o padrão. A ilusão tem sotaque diferente, mas a gramática é a mesma.

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A PERGUNTA QUE DEVERIA ABRIR TODA REUNIÃO ESTRATÉGICA

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Antes de qualquer decisão estratégica relevante, existe uma pergunta que deveria ser feita, e quase nunca é:

"O que estamos fingindo que não vemos para continuar avançando?"

Enquanto essa pergunta não entrar na sala, nenhuma tecnologia, crescimento ou planejamento será suficiente.

A ilusão pode até durar mais, mas o custo sempre chega.

E quando chega, não aceita parcelamento.

Responda aqui nos comentários qual dessas três ilusões você enxerga mais no seu contexto, ou envie uma mensagem direta para conversarmos sobre governança, FP&A e estratégia.

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Publicado originalmente por Johnathan Pires no LinkedIn. Ver a publicação original.

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