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Cento e trinta e seis declarações sem movimento

Johnathan Pires ·Sócio-fundador · ·9 min de leitura

Todas com nota fiscal no mês. O que aparece quando um escritório de contabilidade cruza, toda segunda-feira, o Domínio com o próprio controle de obrigações.

Em algum escritório de contabilidade do Brasil, agora, enquanto você lê, existe uma declaração marcada como sem movimento num sistema, e no outro, a dois cliques de distância, as notas fiscais daquele mesmo mês escrituradas com capricho, conferidas, integradas, prontas para sustentar um imposto que ninguém declarou.

Ninguém mentiu. O analista da obrigação abriu o controle de prazos, viu o cliente sem movimento e deu baixa com a consciência tranquila de quem cumpre procedimento. O analista da escrita abriu o Domínio, lançou as notas e foi almoçar com a mesma tranquilidade. Cada um fez o seu pedaço, e o erro, que não cabe no pedaço de ninguém, ficou morando no corredor entre as duas mesas, quieto, paciente, esperando alguém de fora encontrá-lo primeiro.

No escritório desta história, não era uma declaração. Eram cento e trinta e seis, espalhadas por cinquenta e nove empresas.

O escritório de dois cérebros

O escritório contábil brasileiro funciona como um sujeito com dois cérebros que não se falam. Num deles está o ERP, quase sempre o ERP Domínio, da Thomson Reuters, com a escrituração, as notas, as apurações, a folha e o balancete. No outro mora o controle de obrigações, com os prazos, as entregas, os responsáveis e a eterna lista do que o cliente mandou e do que o cliente jura que mandou.

Cada cérebro é competente no que faz. O problema é que a verdade de uma empresa não está em nenhum dos dois, está no cruzamento, e o cruzamento não é tarefa de ninguém. Faça a conta de um escritório médio, com algumas centenas de empresas, dezenas de obrigações por empresa e doze competências por ano, e o resultado é um volume que nenhum coordenador revisa à mão, nem que trabalhasse sábado, domingo e feriado, o que, convenhamos, muitos já fazem.

A revisão vira um ato de memória. Alguém lembra de olhar, alguém desconfia de um número, alguém pergunta no cafezinho. Quando ninguém lembra, quem avisa é o cliente, a cobrança ou a fiscalização, e nessa ordem a conversa só piora.

E piora com base legal. Declaração entregue sem movimento quando havia receita é omissão, e se o fisco chegar antes da regularização, a denúncia espontânea do artigo 138 do Código Tributário Nacional deixa de proteger e a multa de ofício de setenta e cinco por cento do artigo 44 da Lei 9.430/1996 senta à mesa. Depois vem a segunda conversa, com o cliente, sobre quem paga a conta, e o Código Civil, no parágrafo único do artigo 1.177, lembra que quem escritura responde pessoalmente, perante a empresa, pelos atos culposos. Desatenção, no nosso ofício, tem CNPJ e tem valor.

O que apareceu na primeira leitura

O escritório deste caso tem mais de duzentas e cinquenta empresas na carteira, entre Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real. Não vou dizer o nome, por sigilo e por respeito a quem abriu a própria casa ao nosso trabalho, mas posso contar o que a primeira leitura completa da carteira encontrou, antes de qualquer correção.

Cento e trinta e seis declarações sem movimento com notas escrituradas no mês, em cinquenta e nove empresas.
Cinquenta e três meses com faturamento escriturado e o Simples Nacional não apurado.
Cinquenta e oito empresas com a contabilidade parada, sem um único lançamento no ano.
Noventa e seis com a escrituração em atraso.
Sessenta e sete com o resultado de exercícios anteriores não zerado.
Cinquenta e quatro empresas com empregados e folha não contabilizada.
Mais de quatro mil controles de certidões e de legalização vencidos sem baixa.
Treze empresas com lançamentos em datas impossíveis, em anos como 2050 e 4024, o que diz mais sobre o cansaço de quem digita do que sobre o futuro das empresas.

E a minha preferida, porque parece crônica e é controle interno. A DCTF mensal, que a Receita extinguiu a partir de 2025, seguia ativa, cobrada com zelo, no controle de quase cento e noventa empresas, enquanto a ECF, que existe, é exigida e tem multa, simplesmente não constava no controle de nenhuma empresa do Lucro Presumido. O escritório vigiava com rigor um fantasma e deixava a porta da frente aberta.

Nada disso era desleixo. Era aritmética. Nenhuma equipe cruza à mão aquilo que cresce mais depressa do que ela.

O erro mais caro de um escritório não está em nenhum dos sistemas. Está no corredor entre eles.

O que construímos

Na Maestr.IA, construímos com esse escritório uma rotina em Python que lê o banco de dados do Domínio Web, cruza tudo com o controle de obrigações e aplica mais de setenta conferências contábeis, fiscais e cadastrais, empresa por empresa, competência por competência.

Quem já tentou integrar o Domínio Web ouviu, mais de uma vez, que não dava. Dá, desde que se mude a pergunta, e a resposta funciona sem alterar uma vírgula no sistema.

Toda segunda-feira, ao meio-dia, sem que ninguém aperte botão, cada uma das quatro áreas do escritório recebe o próprio e-mail, com cópia para a coordenação e para os sócios. Cada e-mail diz o que está errado, em qual empresa e competência, com quem está, qual é a primeira ação e até quando ela precisa acontecer, e chega com uma planilha anexa que transforma a lista em plano de ação. O formato é o mesmo para as quatro. O conteúdo, não.

Fiscal. Declarações dispensadas com notas escrituradas, faturamento sem imposto apurado, obrigação vencida com movimento no mês, apuração feita antes de notas que chegaram depois. É a área em que o erro vira multa mais depressa.

Contábil. Resultado de exercício anterior não zerado, escrituração parada ou em atraso, folha não contabilizada, notas da escrita fiscal sem integração, documentos que o cliente mandou e ninguém lançou. É a área em que o erro não aparece no mês, aparece no balanço.

Cadastro e Legalização. Certidões vencidas sem baixa, certificado digital expirado, empresa com um regime num sistema e outro regime no outro, prestadora de serviço sem inscrição municipal. É a área em que o problema dorme até o dia em que o cliente precisa da certidão para fechar um contrato.

Auditoria. Todos os pontos críticos do escritório numa visão só, para quem responde pelo conjunto, e os avisos da própria rotina sobre o que ela não conseguiu ver. É o e-mail que o sócio lê primeiro.

O que antes dependia de alguém lembrar de olhar agora chega, pontual como boleto, na caixa de entrada de quem precisa resolver.

A segunda-feira mudou de assunto

Durante anos, documentação atrasada queria dizer que o cliente não tinha mandado. O cruzamento mostrou que, muitas vezes, o documento tinha chegado, estava na pasta, e ninguém tinha dado baixa nem lançado. A frase da reunião de segunda mudou de o cliente não mandou para está com a gente, e quem já coordenou equipe sabe que trocar o sujeito de uma frase dessas muda o clima de um escritório inteiro.

A rotina guarda o histórico e separa o que é novo, o que é reincidente e o que foi resolvido desde a semana anterior. A pendência que fica aparece no e-mail seguinte com a idade escrita ao lado, pendente há três rodadas, e não existe cobrança de chefe mais eficaz do que a própria pendência fazendo aniversário em público. Quem resolve recebe agradecimento no e-mail, porque reconhecimento também é controle.

Cada um dos setenta e seis tipos de pendência vem acompanhado de uma entrada de manual, com o risco de não corrigir, o passo a passo do analista, o que a coordenação confere, a decisão que cabe à gerência, o prazo e a base legal. O analista júnior, que antes aprendia errando e torcendo para o erro não chegar ao cliente, agora recebe o como se faz junto com a pendência. O padrão do escritório saiu da cabeça de quem já sabia e passou a chegar, toda semana, na caixa de entrada de quem ainda está aprendendo.

Inteligência, mas no lugar certo

Há uma escolha nesse projeto que costuma surpreender quem me conhece pelo trabalho com inteligência artificial. A rotina que roda toda segunda não usa IA. São regras determinísticas, em que o mesmo dado produz sempre o mesmo resultado, e cada apontamento pode ser explicado, linha por linha, a um auditor, a um fiscal ou a um sócio desconfiado.

A IA trabalhou antes, e trabalhou muito. Pesquisou as obrigações por regime, estado e município, ajudou a desenhar as regras, escreveu o manual e montou os testes. Depois saiu da frente, porque a máquina que responde diferente a cada vez que se pergunta é ótima conselheira e péssima auditora.

Inteligência artificial sem método é só barulho com boa iluminação. Aqui, ela construiu o método e saiu da frente.

Ela só lê. A rotina nunca altera o Domínio nem o controle de obrigações. Aponta, sugere, e quem corrige é a equipe. Na segunda seguinte, ela mesma confere se foi corrigido, com a paciência de quem não tem outra coisa para fazer.

Ela mora no escritório. Roda na infraestrutura e nas credenciais do próprio escritório, e os e-mails saem do endereço do escritório, não do nosso. O dado do cliente não passeia por servidor de terceiro, e para quem é guardião de informação alheia isso deixa de ser detalhe de TI e vira sigilo profissional.

Ela desconfia de si mesma. A rotina avisa quando pode estar cega, quando a fonte chegou incompleta, quando aparece uma obrigação que nenhuma regra cobre, quando a leitura falha. Tenta três vezes no dia e, se as três falharem, avisa a coordenação e a TI com o motivo. No dia em que faltou energia no prédio, foi esse desenho que impediu o silêncio, que em controle interno é o pior dos ruídos.

Antes de o primeiro e-mail chegar à equipe, uma ferramenta independente conferiu, número a número, cento e cinquenta e três pontos entre a planilha e o e-mail de cada rodada, e amostras foram refeitas direto na fonte, com consultas escritas do zero. Um e-mail errado na primeira semana mata uma automação para sempre, e nós sabíamos disso.

Seis a oito semanas

Do diagnóstico à rotina rodando sozinha foram de seis a oito semanas. O diagnóstico, a primeira leitura completa da carteira, já vale por si, porque mostra de uma vez onde estão os riscos que a revisão manual nunca alcançou, e os números lá de cima saíram dele.

Depois vêm a parametrização das regras à realidade do escritório, a instalação, os envios de teste e algumas rodadas de operação assistida. Daí em diante, o escritório opera sozinho, sem depender de nós, sem assinatura e sem servidor nosso no meio do caminho.

Para escritórios que usam o ERP Domínio

Se o seu escritório trabalha no ERP Domínio, na versão Web ou na instalada, e controla prazos e entregas num sistema à parte, este caso é o seu. A rotina não depende do tamanho da carteira. Serve para cinquenta ou para quinhentas empresas e confere, em cerca de meia hora e sem ninguém olhando, o que nenhuma equipe consegue revisar toda semana.

Ela não pede que o escritório troque de sistema, não altera um registro sequer, não manda dado de cliente para fora e não depende de nós depois de instalada. O que ela muda é a hora em que o problema aparece, que deixa de ser o dia da cobrança, da malha ou da notificação e passa a ser a segunda-feira ao meio-dia, com nome, empresa, competência e prazo.

O primeiro passo é um diagnóstico da sua carteira, antes de qualquer instalação. Ele mostra quantas declarações sem movimento têm nota escriturada, quanto faturamento está sem imposto apurado, quantas obrigações exigidas nunca foram cadastradas e quantas empresas estão com a contabilidade parada. É o mesmo raio-x que gerou os números deste texto.

Se quiser ver esse raio-x na sua carteira, escreva DIAGNÓSTICO nos comentários ou me mande uma mensagem. Mostro a revisão funcionando com os e-mails e as planilhas de demonstração, e conversamos sobre o seu escritório.

Toda carteira tem um erro desses, que pertence a todo mundo e, por isso, a ninguém. A única dúvida é quem vai encontrá-lo primeiro, o seu escritório numa segunda-feira ao meio-dia ou o fisco numa terça qualquer.

Se a Receita cruzasse hoje as declarações sem movimento da sua carteira com as notas escrituradas no Domínio, quantas ela encontraria antes do seu escritório?

Publicado originalmente por Johnathan Pires no LinkedIn. Ver a publicação original.

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