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Edição #12 - O dado que não é seu

Johnathan Pires ·Sócio-fundador · ·5 min de leitura

Um controller me mandou, num sábado de manhã, o balancete inteiro de um cliente pelo WhatsApp, pedindo uma olhada rápida. Vinha tudo junto, razão social, CNPJ, folha com o nome de todo mundo, extrato com titular e número de conta, empacotados num arquivo só dentro de um aplicativo de celular, sem uma linha de autorização em lugar algum. Ele não é um profissional descuidado, muito pelo contrário, é bom no que faz e trabalha numa operação organizada. Ele apenas nunca parou, em quinze anos de carreira, para pensar que aquele arquivo não era dele.

Essa frase sustenta a edição inteira. O dado não é seu. Ele está com você, que é uma situação jurídica e moral completamente diferente, e a distância entre as duas coisas é onde a nossa profissão vai se dividir nos próximos anos.

A pergunta que chega antes de todas as outras

Desde que comecei a falar publicamente sobre inteligência artificial aplicada à contabilidade, a dúvida que mais me chega por mensagem privada não é sobre qualidade de resposta, nem sobre alucinação, nem sobre preço de assinatura. É sobre sigilo, sempre sobre sigilo, formulada com aquele constrangimento de quem pergunta algo que sente que já deveria saber. E é a dúvida certa, porque é a única de toda essa conversa que envolve uma responsabilidade que pedido de desculpas não desfaz.

Contador é guardião de dado de terceiro, e isso não nasceu com a LGPD, não depende do PL 2338 e não espera o AI Act europeu virar jurisprudência. É condição da profissão desde muito antes de existir computador na sala. Somos a única figura do organograma que vê o salário de todos, a margem real, a dívida que o dono esconde, o sócio que retira mais do que devia, e atravessamos décadas sem que ninguém nos pergunte onde guardamos aquilo. A confiança, no nosso caso, é presumida. Presumida é exatamente o tipo de confiança que ninguém defende até o dia em que ela é testada.

O que nunca entra

Documento de pessoa física. Folha de pagamento com nome. Extrato bancário com titular e conta. Contrato com a qualificação completa das partes. Qualquer coisa, enfim, que permita a alguém reconstruir quem é a pessoa por trás do número.

Não existe exceção de urgência aqui, por mais que a urgência seja real e o cliente esteja no telefone. Prazo apertado nunca foi fundamento jurídico de coisa nenhuma, e o fato de a ferramenta ser conveniente não transforma conveniência em autorização.

O que a máquina precisa de fato enxergar

Aqui está a parte que quase ninguém percebe, e que desmonta a falsa escolha entre usar IA e proteger o cliente. Para fazer conciliação, análise de variação, teste de razoabilidade ou projeção, a máquina não precisa saber quem é o fornecedor. Ela precisa da estrutura.

Conta contábil, data, valor, histórico padronizado, centro de custo, natureza da operação. Isso basta, e sobra, para encontrar o lançamento duplicado, a variação que não fecha com o histórico da conta, o rateio que ficou preso num centro de custo que deveria ter sido encerrado em janeiro e que ninguém teve coragem de mexer porque mexer daria trabalho. Nada disso depende de nome próprio.

Quem retira o identificador e mantém a estrutura não perde análise nenhuma. Perde exposição, que é a única coisa nessa história de que ninguém jamais sentiu falta.

Descaracterizar sem inviabilizar

A prática que adotei é rudimentar e por isso funciona. Cada identificador vira um código estável. O fornecedor passa a ser F001, o cliente vira C014, o funcionário vira M07, e a tabela que liga código a nome permanece fora da conversa, no seu ambiente, sob o seu controle, exatamente como o livro de senhas que ninguém deixa em cima da mesa.

A máquina trabalha no código, devolve o resultado, e você reconduz aquilo para dentro da tabela. O relatório final sai com nome porque quem monta o relatório final continua sendo você, que é, aliás, a única parte dessa história que nunca esteve em disputa.

Custa dez minutos de preparação na primeira vez e praticamente nada nas seguintes, porque vira parâmetro de exportação. Dez minutos é menos tempo do que a maioria de nós gasta discutindo se a IA vai ou não tomar o nosso lugar.

A parte que não se terceiriza

E então chega o ponto em que nenhuma ferramenta vai socorrer ninguém, por mais capaz que ela fique daqui a dois anos ou vinte.

A máquina não assina o balanço. Não responde a processo. Não presta esclarecimento ao fisco. Não senta diante do conselho para explicar por que aquele ajuste entrou no resultado do trimestre e não no anterior. Ela não tem registro profissional, não tem nome na capa do parecer, não tem carreira a perder e não tem noite mal dormida.

A IA não tem registro no CFC. Quem assina é você.

Quem trata isso como formalidade de rodapé está confundindo velocidade com controle, e das duas uma some primeiro numa auditoria, sempre a mesma.

O teste das três perguntas

Antes de colar qualquer coisa numa IA, três perguntas resolvem quase tudo, e nenhuma delas é técnica.

Se este conteúdo vazasse amanhã, o cliente teria motivo para me processar?

Se um auditor pedisse para ver o caminho que esse número percorreu, eu conseguiria mostrar do começo ao fim?

Se eu tivesse que assumir esse resultado sozinho, sem mencionar ferramenta nenhuma, eu assumiria?

Quem responde não à primeira e sim às outras duas está operando com governança. O resto é sorte, e sorte, na nossa profissão, tem outro nome menos simpático, que é passivo não provisionado.

O que eu queria que ficasse

A inteligência artificial está entrando na contabilidade por baixo, pela rotina, pelo estagiário que descobriu sozinho, sem pedir licença ao organograma e sem esperar a política interna que o jurídico prometeu para o semestre que vem. Ela vai chegar ao seu time com ou sem a sua autorização, e provavelmente já chegou.

A diferença entre o escritório que sobrevive a isso e o que apanha feio cabe numa página. Uma página dizendo o que entra, o que não entra e quem responde quando alguma coisa der errado.

Se essa página não existe na sua operação, ela já está sendo escrita de qualquer jeito, por tentativa e erro, num sábado de manhã, dentro de um aplicativo de celular.

Na sua operação, quem decidiu o que pode ser colado numa IA, e essa decisão está escrita em algum lugar ou continua morando na cabeça de duas pessoas que uma hora vão tirar férias?

Me conta nos comentários. Leio todos.

Esse caminho inteiro, da descaracterização à entrega final, é o que a gente constrói ao vivo na 3ª turma da Imersão Claude para Contadores, no sábado 3 de outubro, sobre uma empresa modelo com balancete e plano de contas.

Publicado originalmente por Johnathan Pires no LinkedIn. Ver a publicação original.

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