Edição #14 · Noventa e dois milhões

Toda vez que sai um relatório sobre o futuro do trabalho, meu celular recebe o mesmo print, enviado por amigos diferentes, com a mesma pergunta aflita por baixo. E o contador, acaba?
A pergunta chega sempre com um certo prazer mórbido, o mesmo com que o brasileiro comenta o preço da gasolina, como quem anuncia uma tragédia já prevista e no fundo um pouco desejada. Há em nós uma vocação antiga para o fim do mundo, desde que seja o fim do mundo dos outros, e a contabilidade virou o personagem preferido desse teatro. Somos a profissão que todo relatório enterra e que, curiosamente, nunca morre.
Esta edição é sobre o motivo disso, e sobre o único risco que de fato existe, que não é o de a máquina chegar, mas o de ela chegar e encontrar o contador fazendo exatamente o que ela faz melhor.
O print que para na linha errada
O número da vez veio do Fórum Econômico Mundial, no Future of Jobs Report 2025, que ouviu mais de mil grandes empregadores. Noventa e dois milhões de postos deslocados até 2030. É a linha que circula.
O print, curiosamente, nunca alcança a linha seguinte do mesmo relatório, que fala em cento e setenta milhões de postos criados no mesmo intervalo, um saldo positivo de setenta e oito milhões. Tampouco mostra a outra, a que de fato me tira o sono, segundo a qual 39 por cento das habilidades centrais exigidas hoje devem mudar até lá.
E quase ninguém repara que o relatório não põe tudo na conta da inteligência artificial. Divide a responsabilidade com a transição energética, com a economia e com a demografia. A manchete escolhe a metade que assusta, porque o medo circula melhor que a nuance, e nós repassamos o medo com a diligência de quem cumpre um dever cívico.
O relatório não diz que o trabalho vai acabar. Diz que o trabalho vai mudar de lugar, e que quem não mudar junto fica parado onde ele estava.
A profissão nunca morre inteira
Em 2003, os economistas David Autor, Frank Levy e Richard Murnane publicaram um estudo que deveria ter acalmado meio mundo e não acalmou ninguém. A tecnologia raramente substitui profissões. Substitui tarefas, especialmente as rotineiras, aquelas que cabem inteiras numa regra escrita. O resto do ofício se reorganiza ao redor do buraco, como a cidade que cresce em volta de uma praça demolida.
A contabilidade brasileira atravessou isso sem relatório internacional nenhum anunciando o apocalipse. Em 2007 o governo instituiu o SPED, e a escrituração em papel começou a virar arquivo digital transmitido ao fisco. O projeto engoliu uma cordilheira de digitação, conferência de livro, encadernação e carimbo.
Não me consta que tenha fechado a profissão. Fecharam, isso sim, os escritórios que insistiram em vender digitação a um mercado que não precisava mais comprá-la. O modelo de negócio que confundia volume de papel com valor de serviço ficou pelo caminho, e quase ninguém chorou por ele.
A máquina nunca levou uma profissão inteira. Levou sempre o pedaço dela que já funcionava como máquina.
Dois enterros que não aconteceram
- O caixa de banco. O economista James Bessen estudou um caso que eu gostaria de ver pendurado na parede de todo conselho regional. Quando os caixas eletrônicos se espalharam pelos Estados Unidos, a previsão óbvia era o fim do caixa humano. O número de caixas não despencou. Abrir agência ficou mais barato, os bancos abriram mais agências, e o funcionário que contava cédula passou a vender, aconselhar, conversar com o cliente que entrava confuso. A máquina não demitiu o caixa. Demitiu a parte do caixa que era máquina.
- O radiologista. Em 2016, Geoffrey Hinton, um dos pais das redes neurais que hoje sustentam a inteligência artificial, disse que era hora de parar de formar radiologistas, porque os algoritmos leriam exames melhor que eles em poucos anos. Os algoritmos de fato aprenderam a ler exames. Os radiologistas, porém, continuam a ser formados, e vários países hoje se queixam de que faltam. A máquina acelerou a leitura da imagem, e sobrou mais trabalho exatamente onde ela não alcança, no julgamento do caso, na conversa com o médico assistente, na responsabilidade pelo laudo.
O paralelo com a contabilidade é quase escandaloso. Troque exame por balancete, laudo por parecer, médico assistente por dono da empresa, e a história é a mesma, só que com menos glória e mais SPED.
O exercício que ninguém faz
A pergunta "o contador acaba?" é inútil porque é grande demais. A pergunta útil cabe numa folha de papel, e proponho que você a faça ainda hoje, com a agenda da última semana aberta ao lado.
Liste tudo o que você fez na semana, em tarefas de no máximo uma linha. Conciliação do banco, conferência da folha, lançamento de notas, resposta ao cliente, análise da variação da margem.
Ao lado de cada uma, marque se ela cabe numa regra escrita. Se você conseguiria explicá-la a um estagiário por e-mail, sem precisar estar presente, ela cabe.
Some as horas das que cabem numa regra. Esse é o pedaço da sua semana que a máquina já sabe fazer, ou vai saber em breve.
Agora escreva o que você faria com essas horas se elas voltassem amanhã. Se a resposta for mais do mesmo, o risco é seu, não da profissão.
Na maioria das pessoas que conheço, o item 3 assusta e o item 4 fica em branco. É o branco do item 4 que deveria tirar o sono, muito mais que qualquer relatório do Fórum Econômico Mundial.
O que aparece na quarta hora
Nas três turmas da Imersão Claude para Contadores deste ano, a primeira dúvida de quase todo mundo foi se dava para confiar. É uma dúvida legítima, que respeito e que respondo com método, conferência e alguma desconfiança saudável.
Mas a dúvida que mais me interessa aparece lá pela quarta hora, quando o participante percebe que a conciliação que lhe tomava a tarde ficou pronta antes do café. E agora, ele pergunta, meio sem graça, o que eu faço com o resto do dia?
Quem responde a essa pergunta com análise, com conversa franca com o dono da empresa, com leitura de negócio que nenhum sistema entrega, já está do lado dos cento e setenta milhões. Quem responde enchendo a tarde de mais lançamentos está apenas esperando, com paciência admirável, o próximo relatório.
A inteligência artificial não vai roubar o seu emprego. Vai roubar a sua última desculpa para continuar fazendo apenas a parte que ela faz melhor que você.
Qual tarefa da sua rotina você enterraria amanhã sem nenhum luto, e o que colocaria no lugar dela? Me conta nos comentários, que eu leio todos.
A 4ª turma da Imersão Claude para Contadores acontece no sábado, 7 de novembro, e é justamente sobre a tarde que sobra.
Publicado originalmente por Johnathan Pires no LinkedIn. Ver a publicação original.