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EDIÇÃO #7 - IA agêntica: o agente que trabalha enquanto você dorme

Johnathan Pires ·Sócio-fundador · ·9 min de leitura

O que a IA agêntica já executa em finanças, e onde o julgamento continua sendo seu.

Em 2025 a conversa era sobre pedir certo para a IA. Em 2026 a conversa mudou de figura: o que você está disposto a deixar a máquina fazer sem estar olhando.

A diferença entre os dois momentos parece pequena, mas não é. Um chatbot espera você abrir a conversa, escrever o pedido e revisar cada resposta antes de usar. Um agente recebe um objetivo, monta um plano, executa sozinho uma sequência de passos e só volta para você quando termina, ou quando trava.

Para quem responde por número, essa mudança não é apenas de velocidade, é uma mudança no tipo de confiança que se delega.

Esta edição é sobre os dois lados dessa confiança: o que já vale a pena entregar ao agente, e o que continua impossível de tirar das suas mãos.

O que muda quando a IA para de esperar o seu comando

Compare Pedir com Delegar:

Pedir é: “monte um comentário de variação para essa planilha”.
Delegar é: “todo dia, depois que o extrato bancário chegar, concilie com o razão, isole o que não bate e me avise se algo passar de cinco dias parado”.

A primeira frase você escreve de novo amanhã. A segunda você escreve uma vez, e o processo roda sozinho daqui para frente.

E aqui não importa a cadeira em que você senta. CFO, controller, analista financeiro, analista tributário, auditor independente, perito contador, gerente de FP&A: todo profissional que fecha número convive com tarefas que seguem regra clara, se repetem todo mês e hoje ainda dependem de alguém abrir a planilha na unha.

O que já roda sozinho

Os melhores candidatos à automação são tarefas de alto volume e regra clara, do tipo que ninguém escolheu a profissão para fazer. Elas existem em toda cadeira, e mudam de figura conforme o nível em que você senta:

Analista

Conciliar o extrato bancário contra o razão, casando crédito e débito por data, valor e histórico, e separando numa lista de exceções o que não bate.
Cruzar nota, boleto e pedido de compra contra o razão de contas a pagar, sinalizando divergência de valor, CNPJ errado ou nota em duplicidade.
Rodar os lançamentos recorrentes de template (depreciação, rateio, provisão fixa, apropriação de seguro) e deixar o lote em rascunho para conferência.

Controller

Rodar o checklist de fechamento e apontar, item por item, as etapas em atraso e as pendências ainda não baixadas contra o prazo de cada uma.
Conciliar as contas de balanço cruzando o saldo do razão com o auxiliar ou o extrato e isolar as partidas que não amarram.
Gerar a primeira versão das variações de receita e custo, já com o efeito preço e o efeito volume abertos no formato do report.

CFO

Monitorar covenants contra os limites já pactuados em contrato (alavancagem, cobertura de juros, capital de giro) e avisar o que estourou ou chegou perto do gatilho.
Consolidar os KPIs do mês num painel único, com as variações MoM e YoY calculadas e as fontes amarradas para conferência.
Montar a estrutura do board pack a partir dos números de fechamento e do template padrão, pronto para você decidir o que destacar.

FP&A

Consolidar os realizados de várias fontes (ERP, extratos, planilhas de área) num dataset único, padronizado por conta e centro de custo.
Montar o orçado x realizado, calcular os desvios em valor e percentual e sinalizar as linhas acima do limiar definido.
Atualizar o rolling forecast trocando os meses fechados pelos realizados e reprojetando o ano segundo as regras já definidas.

Fiscal e apurações

Apurar os tributos recorrentes (ICMS, PIS, COFINS, ISS) a partir dos livros de entradas e saídas, aplicando CST, CFOP e alíquota por item, com a memória de cálculo pronta para conferência.
Montar as obrigações acessórias da competência (EFD-Contribuições, DCTFWeb, EFD-Reinf), rodar as travas do leiaute e do PVA e devolver a lista de erros para a transmissão.
Varrer a carteira e pré-selecionar as pessoas físicas que viram contribuintes de IBS e CBS e vão precisar de inscrição no CNPJ (agora a partir de 2027), já com os prazos, para você confirmar o enquadramento.

Repare no fio comum: do analista ao CFO, o que o agente assume é sempre o trabalho mecânico, de regra clara, que alimenta a decisão sem ser a decisão. Ele adianta o serviço até o ponto em que o seu julgamento entra, e onde fica esse ponto é o assunto do resto desta edição.

Os cinco mecanismos que fazem um agente executar direito

Na edição passada, prometi que cadeia de raciocínio, decomposição de tarefas, ancoragem, validação e autocorreção ganhariam detalhe nesta edição.

Aqui está, aplicado a um caso concreto: um agente que recebe a tarefa de fechar a conciliação bancária do mês.

Um agente que pula a etapa de validação não é mais rápido, é só mais confiante do que deveria.

O que separa um agente confiável de um agente perigoso não está na inteligência do modelo por trás dele, está em quantos desses cinco mecanismos o fluxo realmente implementa antes de declarar a tarefa concluída.

Onde o julgamento continua sendo seu

O agente decide o caminho mais provável. O profissional decide qual caminho é o certo para aquele caso.

É o controller decidir se uma pendência de conciliação é erro de lançamento, ajuste de exercício anterior ou política contábil que o agente não tinha como conhecer.
É o CFO decidir o que entra no board pack e o que fica de fora porque distrai do que o conselho realmente precisa discutir naquele trimestre.
É o auditor decidir se uma anomalia sinalizada pelo agente é risco material ou ruído estatístico de um mês atípico.
É o analista tributário decidir se a classificação automática respeita o regime específico daquela operação, o tipo de exceção que não está em nenhum manual.
É o profissional de FP&A decidir qual cenário da projeção vira a narrativa que vai para a diretoria, e qual fica de fora por não ser o que a empresa precisa ouvir agora.

A norma é pública e o histórico de conta é dado estruturado, então o agente lida bem com os dois. O que ele não tem é o motivo pelo qual aquele cliente específico sempre erra a mesma classificação em dezembro, ou a leitura de que o conselho vai cobrar conversão de caixa neste trimestre e não EBITDA.

Esse tipo de contexto não vira regra escrita, vive na experiência de quem está na cadeira.

Um teste de três perguntas antes de delegar a um agente

Antes de transformar uma tarefa em fluxo automático, três perguntas resolvem:

A tarefa é repetitiva e segue regra clara, ou depende de julgamento caso a caso?
Existe uma fonte de dado completa e confiável para o agente consultar, ou parte da informação ainda chega por e-mail, WhatsApp ou portal de fornecedor?
Alguém vai validar o resultado antes que ele vire entrega, e em quanto tempo isso acontece?

Três respostas favoráveis e a tarefa é boa candidata a automação. Comece pela camada mecânica, conciliação, classificação, monitoramento, antes de tentar automatizar qualquer coisa que dependa de julgamento sobre um fato específico.

Por que a régua de governança sobe quando ninguém está olhando

Na ultima newsletter tratamos de três perguntas de governança para quem usa IA generativa: quais dados podem entrar, quem aprova a saída antes de virar entrega, o que fazer quando ela erra. As três continuam valendo para o agente, mas duas coisas mudam quando ele passa a rodar sem supervisão direta.

A primeira é que o escopo de autonomia precisa estar escrito antes de ligar o processo, não descoberto depois de um erro. O que o agente decide sozinho, e o que ele apenas sinaliza e espera, são duas listas diferentes, e a linha entre elas precisa estar clara antes da primeira execução.

A segunda é a cadência de revisão. Com um chatbot, você revisa na hora, resposta por resposta. Com um agente, várias ações podem se completar antes que um humano veja qualquer coisa, e o risco mais caro de um agente não é o erro isolado, é o erro que dispara outras três ações antes que alguém perceba.

Por isso a revisão precisa de horário fixo, alguém abre a fila de pendências todo dia de manhã, antes que o resultado vire insumo para outra entrega.

Onde isso deixa de ser teoria

Nas próximas semanas vou rodar um agente real sobre um processo de fechamento e documentar, sem filtro, o que ele resolve sozinho e onde preciso entrar. Esse material vira conteúdo aqui, nos vídeos do canal e na prática da Imersão.

Saber pedir bem foi a régua da edição passada.

A régua desta é saber até onde deixar a máquina decidir sozinha, e isso não se aprende lendo, se aprende configurando, errando pequeno e corrigindo antes de expandir o escopo.

No domingo, 12 de julho de 2026, vou estar ao vivo no Zoom e com gravação por 30 dias, um dia inteiro construindo cinco entregas executivas reais com IA: Restam poucas vagas pelo formato prático 👇

A pergunta é do Paulo Dragaud Zeppelini, num comentário do canal do Youtube, e as duas partes merecem resposta direta.

Sobre as Skills: sim, dei uma olhada, e o lançamento foi maior do que uma rodada de skills soltas. No dia 5 de maio, a Anthropic lançou dez modelos de agente prontos para o trabalho financeiro mais demorado. A maioria mira mercado de capitais, mas três conversam direto com a nossa rotina: o Month-end Closer, que roda o checklist do fechamento, prepara lançamento e monta o relatório final; o Statement Auditor, que revisa demonstração financeira quanto a consistência, completude e padrão auditável; e o General Ledger Reconciler, que concilia conta do razão.

Cada agente combina habilidade técnica predefinida, conexão governada com a fonte de dado e um segundo modelo supervisionando etapas críticas, como verificação de metodologia.

E funcionam, dentro do desenho que a própria Anthropic deixa explícito: o profissional continua revisando e aprovando antes de qualquer coisa virar entrega, ser arquivada ou gerar ação. Nenhum desses agentes substitui a assinatura, eles adiantam o trabalho até o ponto em que ela entra. É o mesmo princípio dos cinco mecanismos que destrinchei nesta edição: a velocidade vem de fábrica, a confiança você constrói testando.

Sobre o seu teste: a experiência que você descreveu, dois minutos para uma análise detalhada a partir só do código da ação e do resultado trimestral, é exatamente o tipo de salto que está deixando muita gente impressionada agora. E o cuidado que você já notou sozinho é o ponto certo. Uma análise rápida e bem escrita pode estar lendo o trimestre certo, ou pode estar repetindo o roteiro mais provável para aquele tipo de empresa sem checar contra o número real, o mesmo risco do workslop que tratamos na edição passada, só que mais rápido e mais convincente.

A pergunta que vale fazer depois de qualquer análise dessas: o que ela cita como evidência, e isso bate com a fonte original?

Se bater, você ganhou duas horas. Se não bater, você descobriu isso em dois minutos em vez de descobrir três semanas depois, na frente do comitê.

E sobre não ser contador, mas analista: essa edição, e as próximas, são para você também. CFO, controller, auditor, analista financeiro, tributário ou de FP&A: quem fecha número convive com o mesmo agente.

Todo time tem aquele profissional que ainda acha que IA não é para a área dele. Marca ele aqui!!!

Publicado originalmente por Johnathan Pires no LinkedIn. Ver a publicação original.

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