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Reforma Tributária 2026: Por que a adaptação superficial ameaça o futuro das empresas?

Éder Manchebo ·Sócio e Diretor de Operações · ·8 min de leitura

A Reforma Tributária inicia seu ano-teste em 2026 e já evidencia um movimento importante dentro das empresas: todas estão tentando se adaptar, mas nem todas estão fazendo isso com a profundidade que o momento exige. A transição para o novo modelo de tributação do consumo altera a lógica de formação de preços, redefine margens e reorganiza processos internos que sustentam o resultado.

Mesmo com ajustes, revisões e prazos estendidos, a essência permanece. O antigo modelo deixa de existir e, com ele, desaparecem práticas que funcionaram durante décadas. Ainda assim, muitas empresas seguem operando como se o ambiente tributário continuasse o mesmo. Isso cria uma sensação perigosa de estabilidade. A negação pode até adiar discussões, mas não elimina o impacto financeiro que virá.

Em uma pesquisa recente realizada pela Robert Half com 100 empresas de diferentes portes, apenas 11% afirmam estar realmente preparadas para a Reforma Tributária. A maioria se encontra em um estágio intermediário, no qual já iniciou análises, mas ainda não compreende de forma clara todos os impactos e muito menos definiu um plano estruturado de ação.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: o que realmente preocupa gestores neste momento de transição? A resposta não está apenas nos números, mas na clareza sobre como cada decisão tomada em 2024 e 2025 vai refletir em um ambiente completamente diferente a partir do ano seguinte.

O NOVO DESENHO TRIBUTÁRIO

A proposta da reforma é ambiciosa, pois busca reduzir a burocracia, simplificar processos e, ao mesmo tempo, melhorar a justiça social por meio de uma distribuição mais equilibrada da carga tributária.

O objetivo é aproximar o Brasil de modelos internacionais mais eficientes e previsíveis.

Como destacou
Moacir Vieira Santos
no webinar da Value Group, “Como se preparar para a Reforma Tributária”, o Brasil opera dentro de um sistema tributário fragmentado entre União, estados e municípios, o que amplia a complexidade e encarece a operação das empresas. Dados da OCDE tornam esse cenário ainda mais evidente: enquanto empresas ao redor do mundo dedicam, em média, 317 horas por ano ao cumprimento fiscal, no Brasil esse esforço ultrapassa 1500 horas. Esse número evidencia a urgência de um sistema mais simples e menos custoso para as empresas.

A unificação dos tributos sobre consumo é o ponto central da mudança. ICMS e ISS darão lugar ao IBS, enquanto PIS e Cofins serão substituídos pela CBS. Essa transição altera processos de formação de preços, critérios de creditamento e rotinas de apuração, exigindo revisão de operações e maior integração entre as áreas fiscal, contábil e comercial.

A adoção da regra do destino passa a concentrar a tributação no local do consumo. Esse movimento reduz disputas fiscais entre estados, mas exige que empresas ajustem sua logística, contratos e análise de margens regionais. Paralelamente, o crédito amplo se torna uma das principais promessas da reforma, com menos limitações e maior transparência, reduzindo acúmulos e travas comuns no modelo atual.

A fiscalização também será redesenhada com a criação de um comitê gestor que padroniza procedimentos. Isso busca diminuir interpretações divergentes e trazer mais previsibilidade, embora exija das empresas um nível maior de conformidade e rastreabilidade das operações.

AS ETAPAS QUE ESTRUTURAM A MUDANÇA

A transição acontecerá em etapas e já possui um cronograma definido:

2026: início da implementação;
2027: encerramento de PIS e Cofins;
2029 a 2031: fase de ajuste, com a redução gradual de ICMS e ISS e adoção progressiva do IBS, começando com 10 por cento de IBS e 90 por cento de ICMS e ISS;
2033: consolidação do novo modelo, com tributação baseada apenas em IBS, CBS e Imposto Seletivo.

ONDE A TRANSIÇÃO AMEAÇA RESULTADOS: OS RISCOS REAIS DA REFORMA

Apesar da reforma tributária trazer simplificação no longo prazo, o período de transição abre espaço para riscos estratégicos relevantes. Estes riscos já aparecem no dia a dia das empresas e revelam onde estão as principais fragilidades do processo de adaptação. Assim como apresentados na enquete, são eles:

📌Preços e margens sob um novo modelo tributário

O primeiro deles é a dificuldade em ajustar preços e margens diante de um modelo que altera a base de cálculo e o fluxo de créditos. Para muitas empresas, o desafio não é apenas recalcular, mas compreender como a mudança impacta cada produto ou serviço. Sem isso, o risco de perda de competitividade ou de margens comprimidas se torna imediato.

Para mitigar esse ponto, o caminho mais seguro é estruturar simulações tributárias integradas ao pricing, revisando margem e elasticidade por linha de negócio e não apenas no agregado.

📌Remuneração variável desalinhada à nova lógica

Outro ponto crítico está na remuneração variável, especialmente em modelos que utilizam margens como referência. Com a nova lógica tributária, métricas que serviram durante anos deixam de refletir o desempenho real. Isso cria riscos de desalinhamento entre estratégia e incentivo, gerando distorções que afetam o comportamento comercial e a própria governança.

Apesar de ter sido o tema menos votado na enquete, ele é tão sensível quanto os demais e frequentemente subestimado. Uma forma de reduzir esse risco é revisar a arquitetura de incentivos, recalibrando KPIs e adotando métricas que consideram margens líquidas dentro da nova dinâmica tributária.

📌Decisões comerciais focadas em faturamento bruto

Também a preocupação com decisões comerciais baseadas apenas em faturamento, sem considerar o impacto tributário líquido. Em um sistema de créditos e compensações redesenhado, vender mais não significa necessariamente ganhar mais. Essa visão parcial pode levar a decisões equivocadas, amplificando riscos financeiros justamente no momento em que as empresas deveriam reforçar prudência.

A melhor forma de cessar esse comportamento é integrar inteligência tributária às análises comerciais, criando dashboards que conectem volume, preço, crédito e margem efetiva antes da tomada de decisão.

📌Falta de clareza sobre impacto por produto ou serviço

Por fim, uma das fragilidades mais recorrentes é a baixa clareza sobre o impacto da reforma por produto ou serviço. Isso se traduz em dificuldade para simular cenários, projetar margens futuras e planejar o posicionamento da empresa. A falta de visibilidade aumenta o risco de movimentos reativos, em vez de estratégicos, em um ano que exige antecipação e leitura fina das variáveis.

Reduzir essa falta de clareza passa por construir modelos de cenários comparativos pré e pós reforma por item, canal e cliente, permitindo decisões baseadas em dados e não apenas em percepção.

O conjunto desses riscos mostra que o maior desafio não é operacional, mas estratégico. A reforma exige revisão profunda de modelos de negócio, formação de preço, incentivos internos e indicadores. As empresas que deixarem para ajustar no meio do caminho podem enfrentar uma combinação de perda de margem, desalinhamento interno e erros de posicionamento.

SUCESSÃO EM EMPRESAS FAMILIARES: O PESO ADICIONAL DA REFORMA TRIBUTÁRIA

A adaptação à reforma tributária é um movimento estrutural que exige maturidade de gestão, clareza de prioridades e visão de longo prazo. E, no caso das empresas familiares, isso ganha uma camada adicional de atenção. A sucessão, que já demanda preparo, alinhamento e leitura aprofundada do negócio, agora precisa acontecer em um ambiente regulatório em transformação. A transição não pode ser conduzida como se as regras fossem as mesmas, porque não são.

Como reforçado no nosso podcast “Herdeiros do Futuro: Estratégias de Sucessão e Impactos Tributários”:

“Só mais complexidade para esse ambiente de sucessão, porque se antes já era complexo e robusto o suficiente, pensar na estratégia do negócio, entender bem do negócio, ser tão bom quanto o sucedido. Ainda precisa se preocupar como fazer, como minimizar qual a segurança até pro negócio não se deteriorar com essa transmissão. Outro ponto, é como que eu vou cair nesse turbilhão agora da reforma tributária que eu vou ter que repensar o meu negócio como um todo com toda essa complexidade, então temos um desafio absurdo de unir esses temas.”

Esse contexto se torna ainda mais sensível quando falamos de decisões estratégicas que levam anos para se concretizar. Como destacado no webinar, investimentos como um novo centro de distribuição, uma filial ou uma expansão relevante só trazem retorno após três ou quatro anos. Tomar decisões desse porte com base em um regime tributário que está sendo substituído pode comprometer retornos, planejamento e posicionamento competitivo. Por isso, revisar e recalibrar planos à luz do novo sistema é uma necessidade.

GOVERNANÇA COMO EIXO DE ESTABILIDADE DURANTE A TRANSIÇÃO

Diante desse cenário, a governança passa a ser um ponto de apoio. A criação de um comitê dedicado à reforma tributária, formado por lideranças internas e especialistas externos, é a ferramenta essencial. É esse grupo que organiza a tomada de decisão e evita que a empresa seja surpreendida em um ambiente que muda mês a mês.

Um comitê estruturado garante:

Leitura contínua das mudanças, traduzindo normas e ajustes para impactos reais no negócio.
Antecipação de riscos, com simulações e análises que evitam decisões equivocadas durante o período de transição.
Alinhamento entre áreas, garantindo que fiscal, financeiro, comercial, operações e jurídico operem na mesma lógica tributária.
Agilidade para ajustes de rota, reduzindo o tempo entre detectar um impacto e implementar uma ação.
Governança sucessória fortalecida, sobretudo em empresas familiares, onde decisões estratégicas precisam ser compartilhadas e documentadas.
Maior segurança em investimentos, conectando estratégias de expansão ao novo ambiente tributário.
Padronização interna de processos, reduzindo erros operacionais e aumentando conformidade.
Visão integrada de margens, preço e crédito, permitindo decisões comerciais e financeiras mais sólidas.

Em momentos de transição profunda como este, governança é estrutura, proteção e direcionamento.

PREPARAR-SE DEIXOU DE SER OPCIONAL

Por fim, a reforma tributária já está em curso e seus impactos afetam formação de preço, incentivos internos, decisões de investimento e o próprio desenho dos modelos de negócio.

Para empresas familiares, o cuidado precisa ser ainda maior. A sucessão, que por si só já demanda preparo e alinhamento entre gerações, agora ocorre em paralelo a um ambiente tributário em transição. É um momento que exige clareza, governança e decisões bem fundamentadas.

O que observamos na enquete confirma: há incertezas reais, mas esperar não é uma estratégia. As empresas que colocarem o tema no centro do planejamento e criarem estruturas dedicadas para acompanhar a reforma chegarão mais preparadas para esse novo ciclo.

Publicado originalmente por Éder Manchebo no LinkedIn. Ver a publicação original.

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